Artigos Tactical Analysis

Cruzeiro 3 x 0 Atlético – A aleatoriedade e Mano Menezes

Um jogo de futebol envolve muitas estratégias, detalhes e principalmente: o aleatório. Além de uma análise tática da partida, falamos de como a "sorte" influência o esporte mais popular do mundo.

Futebol é um esporte dos mais aleatórios possíveis, onde situações acontecem de forma desordenada a todo momento. Tais situações podem levar um time a ter bons e maus momentos durante as partidas, e é a partir desse conjunto de situações nem sempre comandadas pelos jogadores e técnicos que temos a construção dos resultados finais. Talvez por isso – essa falta de domínio – que amamos tanto esse esporte.

Lembremos do jogo entre Athletico 1 x 1 Flamengo ocorrido na quarta-feira dia 10/07. O Flamengo comandado pelo novo treinador Jorge Jesus começou a colocar em prática algumas das ideias do técnico, tal como a pressão alta na saída de bola do adversário, toques rápidos e time em constante movimento. Do outro lado, Tiago Nunes (treinador do Athletico) buscou sufocar os rubro-negros cariocas, com muita velocidade, jogadas em profundidade “espetando” seus laterais nos lados do campo e tentando cruzamentos nas costas dos defensores flamenguistas. Ele só não contava com uma coisa: uma cobrança de lateral. Sim, isso mesmo, o gol do Flamengo surgiu de uma cobrança de lateral em direção a Gabriel Barbosa que contou com uma falha do zagueiro Léo Pereira e pôde concluir junto a meta athleticana – apesar de todo o repertório pensado e reproduzido pelos jogadores comandados por Jorge Jesus. “Aleatoriedade” talvez seja, junto com a “Paixão”, os sinônimos do que é o futebol. As jogadas, situações e momentos simplesmente acontecem… Ou não.

Mapa de calor de Pedro Rocha – SofaScore

Mano Menezes conhece o seu rival tão bem quanto domina o seu elenco, e por isso conseguiu diminuir as aleatoriedades da partida de ontem com a entrada de Pedro Rocha no 11 inicial no lugar do centroavante Fred. A zaga atleticana é lenta e tem dificuldades durante as recuperações defensivas, sabendo disso, Mano optou por jogar sem um centroavante de área, que poderia limitar o time celeste em termos de velocidade e profundidade, por isso, o camisa 32 foi o responsável por comandar o ataque da raposa atuando como um “falso 9”. Longe de ter uma referência na área, o treinador cruzeirense buscava exatamente uma maior movimentação tanto do seu atacante quanto dos 3 homens do meio: Marquinhos Gabriel, Thiago Neves e Robinho. Tal movimentação tinha como objetivo atrapalhar os defensores atleticanos, desde a primeira linha de defesa com Patric, Igor Rabello, Réver e Fábio Santos até os volantes Elias e José Welison.

Como o Galo treinado pelo (agora) técnico Rodrigo Santana tem apreço pelo controle de jogo por meio da posse de bola, aproximação dos jogadores de meio junto aos laterais e marcação média/alta, Mano sabia que a bola não ficaria sob domínio do Cruzeiro, e é por isso que ele poderia apostar em situações de contra-ataques para ferir o seu rival. A compactação defensiva é o ponto chave dos times treinados pelo gaúcho de Passo do Sobrado-RS e, junto com Carille, representam os melhores pensadores de estratégias defensivas no território brasileiro.

13′ – 1 x 0

Apesar do placar elástico, o Atlético iniciou a partida comandando as ações ofensivas do jogo e buscando impor-se em meio ao campo do rival durante os 10 primeiros minutos. Até que o personagem da noite (Pedro Rocha) recebe um passe de Henrique metros antes da entrada da grande área, aplica um drible sobre Elias, que não consegue se recuperar a tempo, e manda um “pombo sem asa” no gol de Victor. Indefensável. A partir daí o jogo mudou de figura, e mesmo que as atitudes de ambos os times continuassem as mesmas, com o Atlético tentando propor o jogo e o Cruzeiro esperando o momento certo para revidar, alguma coisa estava diferente. A aleatoriedade, ou melhor, o golaço protagonizado por Pedro Rocha mudara o ambiente do jogo.

27′ – 2 x 0

Pedro Rocha e a compactação defensiva cruzeirense – SporTV / Premiere

Quando falamos do acaso estamos nos apegando a suposições daquilo que poderia ou não ter acontecido. O trabalho de um técnico é exatamente esse, supor, prever e prevenir algo que pode (ou não) ocorrer.

Cruzeiro: posicionamento médio durante os 90′

Com a excelente marcação realizada pelo time celeste com as linhas baixas e bem compactadas, impossibilitando o Atlético de criar jogadas próximas a área adversária, o Cruzeiro se mantinha em seu campo como na imagem acima e “dava” a bola ao time atleticano. Em uma das saídas de jogo do Atlético, cujo time estava praticamente com todos os jogadores de linha no lado cruzeirense, o “acaso” aconteceu. A estratégia tão bem pensada por Luiz Antônio Venker Menezes, ou, Mano Menezes pôde mais uma vez ser posta à prova: a saída de jogo do Atlético buscando iniciar a construção das jogadas ofensivas não foi eficiente (durante todo o jogo) devido a ótima marcação do time celeste, que diminuía e muito as opções de passe dos zagueiros alvinegros, responsáveis por começar o ataque desde trás. Pedro Rocha aproveita um mau passe dado pelo capitão rival a Zé Welison e roubou a bola para poder atacar em velocidade todo o espaço às costas dos defensores, nesse caso, todo o campo do Atlético, aplicando ainda um drible ao arqueiro Victor e concedendo uma belíssima assistência ao camisa 10 celeste.

55′ – 3 x 0

Assim que o segundo gol foi feito pouco depois da metade do primeiro tempo, o Atlético se mostrava completamento envolvido e perdido em campo. Ter a bola e comandar as ações num jogo não significa que um time tenha domínio da partida e o jogo de ontem mostra bem isso.

Atlético: remates sofridos – Branco: Gols | Azul: Defendidos
Cruzeiro: remates sofridos – Preto: Defendidos

O Cruzeiro dominou a partida do início ao fim, seja quando deixava a bola sob o domínio do rival que teve 65% de posse ao final dos 90′, seja quando se postava em seu campo diminuindo as opções de passes e minando assim, as jogadas atleticanas, ou quando saia em contra-ataque e levava muito perigo a defesa do Galo, que vez ou outra era pega fora de posição.

Aos 10 minutos da etapa final (ou 55 minutos na contagem europeia), Robinho que vinha fazendo boa partida, sacramentou a 1ª vitória em cima do maior rival em competições nacionais de mata-mata. Após contra-ataque cruzeirense, o camisa 19 aplica um drible em Zé Welison próximo da grande área e finaliza com a perna esquerda, um chute colocado e com direção. Réver por sua vez, próximo a marca de pênalti se atira em direção a bola e bloqueia o remate no meio do caminho, que, por sorte (?), retorna no peito do meia celeste que só tem o trabalho de arriscar um novo chute, sem goleiro – que havia se jogado em direção ao primeiro remate – e estourar o Mineirão.

Sem dúvidas que não foram a “sorte”, o “acaso” ou simplesmente o “aleatório” que fizeram o maior campeão de Copas do Brasil sair vencedor na primeira partida das quartas de final do segundo torneio mais importante do país. O mérito dos 3×0 é todo dos jogadores (e do treinador) do Cruzeiro. Uma estratégia também conta com a sorte, e foi exatamente isso que fez com que ela fosse tão bem executada na quinta-feira. Mano Menezes tem alguns dias de folga de toda a turbulência vivida dentro e fora de campo pela entidade que representa, enquanto Rodrigo Santana terá um inferno astral para enfrentar nos próximos jogos e quiçá meses.

Ajude-nos a crescer

Essa é uma forma de nos ajudar a melhorar. Faça uma pequena contribuição para que possamos fazer mais análises, textos e melhorar cada vez mais a quantidade (e qualidade) dos jogadores indicados.

R$5,00

*Foto via: O Tempo

Comente aqui o que você achou da partida de ontem e o que espera ver no próximo embate entre os dois gigantes de Minas Gerais.

4 comentários em “Cruzeiro 3 x 0 Atlético – A aleatoriedade e Mano Menezes

  1. Jose Reis Cavalcante Morais

    Excelente explanação da partida ocorrida ontem. Parabéns!!!

  2. Thiago Alemão

    Parabéns pela análise. E acrescentando ao seu texto, o Cruzeiro foi letal contra um Atlético-MG perdido, lento e sem criatividade, aproveitou as oportunidades para encaminhar a classificação.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: