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Libertadores da América – Final: River Plate 1 x 2 Flamengo – a redenção de Diego e a análise tática da partida (Parte 2)

Em nosso primeiro texto sobre a reestruturação iniciada no Flamengo em 2013 para que o clube pudesse atingir o seu ápice ao conquistar dois títulos de tamanha expressão (Libertadores e Brasileirão) em um mesmo final de semana, destacamos Diego Ribas (34) como sendo a personificação da “virada de chave” do clube carioca no âmbito das contratações.

Ele foi o primeiro grande craque do time nessa nova fase de “contas em dia”, e se engana quem pensa que o antigo camisa 35 teve uma vida fácil nesses seus quase três anos e meio de clube.

Por se tratar da “estrela solitária” do elenco rubro-negro, Diego sofreu com diversas críticas desde o seu segundo ano no clube – que também passou a contar com Éverton Ribeiro e Diego Alves a partir de junho e julho de 2017, respectivamente -, muito pela falta de títulos mas também pelo seu desempenho em momentos decisivos na(s) temporada(s).

Foram dos pés dele que o Flamengo perdeu a chance de sacramentar a virada diante do Palmeiras, aos 28′ do 2T na 15ª rodada do Brasileirão de 2017. Naquele momento o Flamengo se encontrava na 4ª posição, com 2 pontos a mais que o clube paulista, 5º colocado, e 12 a menos que o Corinthians, líder da competição. Foi também, através de uma cobrança de pênalti falhada por Diego que o Flamengo acabou sucumbindo ao Cruzeiro na final da Copa do Brasil daquele mesmo ano, e foi, mais uma vez, com a contribuição do ex-Santos que o clube carioca parou nas fase de Quartas de Final da Copa do Brasil diante do Athletico-PR, em 2019.

Diego
Foto: Dolores Ochoa/AP Photo

A mancha de um jogador que não conseguia contribuir em momentos decisivos já estava impregnada em sua imagem para o torcedor carioca, e Diego era um dos representantes do ‘cheirinho’ flamenguista. Apelido dado ao time carioca pelos rivais, por bater na trave em diversas oportunidades ao não conquistar títulos de expressâo após 2013. E como se não bastasse a ausência de sorte nesses momentos, o meia acabou por sofrer uma fratura no tornozelo esquerdo ainda na primeira partida das oitavas da Libertadores desse ano, em derrota por 2×0 para o Emelec, que lhe tirou dos gramados por aproximadamente 5 meses até a sua (re)estreia que o manteve em campo por 7 minutos contra o Grêmio no fatídico 5×0 das semis da competição continental.

Por mais que isso seja constantemente esquecido, jogadores de futebol profissional não são máquinas, robôs desprovidos de problemas que impactam e constituem a sua formação social e profissional. Precisamos nos manifestar com mais empatia e embasamento durante a elaboração de críticas (e elogios) às pessoas de modo geral. No futebol, é recorrente “deixarmos a paixão falar mais alto” ao invés da razão, e acabamos por nos esquecer de que se tratam de “gente como a gente”, e que todo jogador hoje badalado, passou e passa por diversos obstáculos, dificuldades e sofrimentos para chegar ao sucesso em suas carreiras profissionais.

O fator financeiro, de salários exagerados, não compreende a realidade de todos os profissionais futebolísticos, mas sim, uma pequena parcela de apenas 5% (2017). E mesmo que englobasse um número maior de atletas, não seria motivo para criticar como bem entender alguém que, como você, sonhou em chegar lá, alcançou tal sonho e, convive diariamente com o ônus e as benesses de estar onde está.

“Seja gentil, pois todo mundo enfrenta uma grande batalha.”

Frase retirada do filme O Extraordinário (2017)

Jogadores são seres humanos cuja formação compreende os mais diversos fatores sociais e psicológicos. E tal como você, isso dita completamente os seus gostos, conhecimento e vivência, impactando diretamente em como o atleta responde em campo e fora dele. É isso que queremos transmitir aqui.

Se a vida é uma batalha (com um final feliz), que seja semelhante a de Diego Ribas.

Análise da partida

Photo by Daniel Apuy/Getty Images

Jorge Jesus pode ser considerado como outro marco da história flamenguista. Antes dos títulos, a vinda de um treinador europeu campeão, cuja carreira havia sido construída de forma praticamente integral em seu país natal (Portugal) diz muito sobre a mentalidade que tomou conta do clube e que foi iniciada há 6 anos.

Vencedor de todos os títulos em disputa em Portugal, Jesus passou por momentos tensos em sua última estadia no país lusitano, quando o seu ex-clube Sporting viu seus “torcedores” invadirem um dos treinos da equipe e agredir o treinador, atletas e comissão técnica com barras de ferro e tochas. Passadas as atitudes criminosas, Jorge Jesus preferiu se mudar para a Arábia Saudita visando o projeto do Al Hilal e também, se afastar dos problemas. Por lá, venceu a Supertaça com o clube antes de desembarcar no Brasil, e fazer o que parecia impossível: mudar os rumos de um time que parecia incapaz de vencer com apenas 6 meses.

Seremos agora levados para o jogo ocorrido em Lima, capital peruana, para falar sobre as disputas no gramado.

Talvez não exista hoje, na América do Sul, com a exceção do Flamengo, um time com tamanho poderio de jogo, compreensão tática e capacidade ofensiva semelhante ao River Plate (ARG). O time (muito bem) treinado por Marcelo Gallardo conquistou nada menos do que 10 dos 11 títulos que o argentino tem no currículo, entre eles, o bi da Libertadores. Muito por isso o jogo foi aquilo que vimos no sábado, com muita entrega, concentração e gana por vencer.

Semelhante ao que foi feito na semifinal da competição, quando o River abdicou da posse de bola para deixar o Boca Juniors desconfortável, visto que o estilo do time xeneize é bastante diferente daqueles que prezam por mantê-la sobre controle, apesar disso, contra o Flamengo não foi diferente. O time de Muñeco Gallardo também deixou que o clube carioca tivesse a posse, porém, a tática era incomodá-los ao máximo com muita intensidade e pressão em busca de um possível erro e consequente contra-ataque argentino.

Ambos os times possuíam a mesma disposição tática em campo (4-1-3-2), e enquanto o Flamengo se preocupava em quebrar as linhas de marcação argentinas visando seus homens de frente, o River se propunha a importunar tanto quem estivesse com a bola quanto quem estivesse sem a pelota. Com os encaixes individuais (cada jogador Millonario marcava um atleta rubro-negro mais próximo) feitos pelos homens de meio e frente, o time de Gallardo visava diminuir as opções de passe do rival a ponto de que o time do Mister Jesus fizesse os movimentos que os argentinos esperavam e vez ou outra, errassem.

River marcando sob pressão desde os primeiros segundos de jogo

Muito por isso, o time de Buenos Aires teve apenas 40,61% de posse de bola, a sua menor porcentagem em toda a temporada até o momento. Afinal de contas, se o meu objetivo é não deixar o outro time jogar, através de muita pressão ao portador da bola, minando suas opções de passe e em busca do consequente erro do adversário, o (meu) time, de fato, não precisará manter a bola sob sua posse como um instrumento para obter o resultado esperado.

Conforme destacado na imagem acima, o agora vice-campeão continental aglutinava seus homens no setor da bola, de modo que eles interceptassem um passe ou condicionassem algum atleta flamenguista a perda da posse, e essa forma de atuar surtiu efeito até os 70 minutos de jogo. Na sequência do lance Bruno Henrique é vitima de uma chegada do lateral argentino e deixa a bola escapar par a lateral.

Para atuar dessa forma, tal como o Flamengo também o fez e com sobras durante o Brasileirão e Libertadores (exceção da final), é preciso muito trabalho tático, mental e de condicionamento físico para que a concentração, foco e intensidade estejam alinhadas em conjunto com toda a equipe. Pelo fato de não ter enfrentado equipes que jogassem de maneira semelhante e até mais intensa que o próprio time flamenguista, os jogadores se sentiram muito desconfortáveis em campo.

Flamengo tenta se recompor, enquanto Filipe Luís (de azul) erra e deixa um buraco às costas, Nacho cruza a partir do círculo vermelho e Borré, livre, infiltra na área e vai para a “Posição 3” para finalizar a gol

Após 13 minutos de jogo e muita disputa e entrega em campo, o River Plate anotou o seu gol. Assim como o time argentino, o Flamengo também se organiza pelo setor da bola, e foi através de uma cobrança de lateral onde se iniciou o lance do gol. Quatro jogadores do time brasileiro foram ao encontro com o recebedor do lançamento, Ignácio Fernández, e após bate rebate, a bola sobra para Enzo Pérez, o então regista Millonario tenta um passe, mal cortado por Filipe Luís, que acaba devolvendo a bola para o camisa 24 do River só passar para Nacho Fernández. Fernández que já se encontrava posicionado nas costas do lateral esquerdo brasileiro, só tem o trabalho de rolar para a área e contar com as falhas de Arão e Gerson (22), que hesitaram em isolar a pelota, e permitiram assim, a chegada do colombiano Rafael Borré para mandar a bola para o fundo das redes. 1×0 River.

E assim a partida se estendeu durante os primeiros 45 minutos, com o Flamengo finalizando apenas uma vez, e de longa distância, em chute de Bruno Henrique aos 9′. Da mesma forma, o ótimo Exequiel Palacios (21) assustou Diego Alves aos 36′ em um potente remate à frente da área.

Na volta para o segundo tempo, o time carioca quase marcou com Gabigol (23) e Éverton Ribeiro após se formar uma parede de jogadores argentinos em cima da linha do gol de Franco Armani, não permitindo que a bola cruzasse a linha do cal.

Gerson (22), que havia sentido bastante a primeira metade, foi substituído aos 66′ para a entrada de Diego, camisa 10 rubro-negro. Diferentemente do camisa 15, Diego passou a comandar o centro de campo do Flamengo, com um bom entendimento de jogo, o meia soube fazer a leitura correta em campo, com mais intensidade com e sem a bola, ele recebia, girava o corpo para fugir dos marcadores próximos e soltava a bola para algum companheiro livre da pressão.

Isso só foi possível pelo conjunto da obra; do lado de lá, Nacho Fernández também fora substituído logo depois, e o jovem Julián Álvarez (19) não entrou na mesma intensidade que o seu companheiro, permitindo ao Flamengo fazer o que mais queria: jogar.

Diego (com a bola) foge da marcação no (círculo azul grande) e lança Gabigol que falha ao assistir Bruno Henrique

Mais associativo do que havia sido Gerson durante a sua estadia em campo, Diego passou a se aproximar de seus companheiros se oferecendo como uma opção criativa, buscando levar aquele passe que colocaria seus colegas em posições perigosas para o adversário.

Aos 74′, outra substituição crucial: Pratto para o lugar de Borré. Lucas possui um perfil de atleta batalhador, que não desiste de nenhuma bola e de nenhuma jogada até que ela se conclua por inteiro. Anteontem, o centroavante foi infeliz em quase todas às suas ações em campo, e foi após tentar um passe no meio de campo aos 88′, interceptado por um carrinho de Diego, que o camisa 10 pôde encurtar o espaço, não deixando-o passar novamente para nenhum companheiro, até que Arrascaeta retomasse a posse com um (outro) carrinho ainda em seu campo de defesa, carregasse e a entregasse para Bruno Henrique, na entrada da área, devolver ao uruguaio que assistiu ao empate anotado por Gabriel Barbosa (23). 1×1 Flamengo.

A frenesi já havia acontecido, o clima no estádio era outro, assim como a marcação do River Plate após os 75′ de jogo. Menos pressionante, o time argentino permitiu que jogadores na base da jogada (tal como Diego) pudessem iniciar passes e procurar soluções sem grandes problemas.

Assim sendo, o jogador que ostenta a 10 que outrora foi de Zico, recebeu um passe de Rafinha aos 91′, entre Matías Suárez e Pratto, que não o pressionaram, na base da jogada e em seu campo de defesa, para lançar em direção a Gabigol (23), que contou com um mau domínio do experiente Pinola que não havia perdido uma sequer, somente essa, para ajeitar como pôde e mandar um balaço com a bola ainda no ar. Estava decretada a redenção de Diego. A virada histórica. O Bi da Libertadores. A recuperação da lesão em tempo recorde. E a certeza de que sem a sua presença em campo, o Flamengo não chegaria ao encontro com a tão sonhada taça continental.

Photo by Manuel Velasquez/Getty Images

Gabriel Barbosa (23) se sagrou, além de campeão, artilheiro da atual edição da Libertadores, com 9 gols anotados em 12 partidas disputadas, além de 1 assistência concedida e claro, 2 cartões vermelhos. Ao seu lado no ataque, Bruno Henrique com 5 gols e 5 assistências, levou para casa um anel de diamantes como prêmio por ser nominado o O Melhor Jogador da América.

Anel de melhor jogador da Taça Libertadores — Foto: Divulgação
Anel dado a Bruno Henrique pelo prêmio de Melhor Jogador da Libertadores 2019 – Divulgação

Um trabalho direta e indiretamente iniciado em 2013, com erros e acertos ao longo do caminho, mas que vai de encontro com tudo aquilo que nós, torcedores, procuramos em nossos times e clubes de futebol. A vaga para o Mundial está garantida, assim como para a próxima edição da Libertadores. Você acredita que esse time tem poderio para vencer o Liverpool (titular) caso o embate chegue a acontecer? Além disso, acredita ser possível a conquista do Tri da Libertadores no ano que vem, caso o time não seja tão modificado e o ótimo Jorge Jesus se mantenha no Brasil? Comente aqui e deixe-nos saber o que você pensa sobre esse time.

*Foto via Daniel Apuy/Getty Images.

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