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Libertadores da América – Final: River Plate 1 x 2 Flamengo – um exemplo a ser seguido (Parte 1)

Esse será o primeiro texto de dois, onde falaremos abaixo sobre a reestruturação do clube (Parte 1) e da análise tática da partida ocorrida anteontem (23/11/19) em Lima, no Peru (Parte 2).

O que o Flamengo, ou melhor, o que esse Flamengo de 2019, que conta com um trabalho iniciado lá em 2013 pode nos ensinar?

Em termos futebolísticos, podemos dizer que jogar buscando a vitória, para cima do adversário, com coragem e foco tanto para se arriscar mais com a bola nos pés quanto para se entregar quando sem ela, vale sim a pena. É mais vistoso e compreensivo jogar tentando ganhar do que tentando não perder. Com ou sem títulos, a vida não é uma soma “ganha-ganha” e normalmente, perderemos mais do que alcançaremos o êxito. Por isso, se opor constantemente a um eventual fracasso diz muito sobre um time que se propõe a ganhar “a todo custo” e em todos os jogos, independente do desafio que se tenha pela frente.

Em termos de vivência, é de se esperar que um time tão influente como o clube carioca – que conta com mais de 42 milhões de torcedores (20% da população brasileira atual) – tenha poder o suficiente para inspirar vidas. Sabendo disso, a capacidade de renovação do clube é primordial para que seus torcedores e demais brasileiros a vejam como um marco tanto para o futebol (brasileiro) quanto para a própria vida e o nosso dia a dia.

Muito se fala sobre os investimentos que ultrapassam os R$ 190 milhões (apenas) em 2019 – R$ 80,534 milhões no Arrascaeta, R$ 49,7 milhões no Gerson, R$ 23,9 milhões no Bruno Henrique, R$ 21 milhões no Rodrigo Caio, R$ 9,2 milhões com agentes, R$ 5,4 milhões no Pablo Marí e R$ 3 milhões em luvas para o Gabigol – para que esse time se tornasse a máquina que conquistou o Bi da Libertadores após 38 anos de espera, o hepta Campeonato Brasileiro, uma década após o último título nacional, e antes de ambos, o Carioca de 2019, conquistando assim, a sua segunda tríplice coroa. Em 1981 o time de Zico conquistou o Carioca, a Libertadores e o Mundial (antiga Copa Intercontinental). Voltaremos então em 2013, para relembrar de quando o estoque da dívida flamenguista já se aproximava dos R$ 800 milhões herdada de administrações passadas.

Fonte: Balancetes financeiros | Via Rodrido Capelo

Eduardo Bandeira de Mello, eleito presidente do Flamengo para o triênio de 2013 – 2016 (e posteriormente de 2015 até 2018) também possui significativa importância nos títulos conquistados hoje. Foi em seu primeiro mandato que o clube, passou, de fato, a praticar a austeridade financeira tão exigida desde o âmbito futebolístico, quanto o municipal, estadual e federal, esses últimos em se tratando do(s) governo(s) brasileiro(s). Ao tentar inverter o fluxo de gastos que se manteve por décadas entre as antigas gestões flamenguistas, Bandeira ajudou a implementar a “Lei de Responsabilidade Fiscal Rubro-Negra“, onde os principais pontos a serem destacados são:

  1. punições a dirigentes (populistas e irresponsáveis fiscalmentes);
  2. mudanças no orçamento anual do clube ao se comprometer com metas e resultados;
  3. medidas que visavam garantir a transparência financeira e fiscal do clube.

Alguns trechos do Estatuto sobre os respectivos pontos listados acima:

1 – “Quem causar prejuízos e atos lesivos ao patrimônio e à imagem do Flamengo pode responder com bens particulares, mesmo após o término dos mandatos.”

Assim sendo, além da inelegibilidade de 5 a 15 anos por parte de quem praticasse atos como a sonegação de tributos ou apropriação indébita (MP 671), o Estatuto flamenguista visava acrescentar maiores punições como a perda de bens particulares por parte dos infratores.

2 – “O orçamento passa a prever limitação de despesas, avaliação de metas, metodologias de cálculos, prospecções, além de relatórios de acompanhamento da execução.”

Discursos populistas são um mal recorrente entre os mais diversos políticos, sejam eles ligados ao esporte ou fora dele, por isso, a limitação das despesas – tal como o tão necessário e ao mesmo tempo criticado (muitas vezes de maneira descabida e mentirosa) Teto de Gastos – em relação às receitas é crucial para qualquer pessoa, empresa privada/pública, clube de futebol e governo em qualquer esfera. O clube se comprometia, portanto, a gastar menos do que recebe, e não mais, inverso ao que ocorre em praticamente todos os clubes brasileiros.

3 – “Balancetes trimestrais e sua comparação com o orçamento passam a ser obrigatórios, assim como sua divulgação e das demonstrações contábeis e financeiras, pareceres etc. Atualmente, a gestão rubro-negra já publica todas essas informações regularmente na seção de transparência do site.”

É fato recorrente vermos economistas e profissionais de dentro da área de finanças questionando – com razão – o fato dos clubes brasileiros apresentarem seus balanços de forma anual, o que traz consigo “razoável transparência” e permite que dirigentes irresponsáveis apresentem seus desmandos com meses de atraso em relação a data do ocorrido. Exemplo disso é que ainda esse ano tivemos diversos clubes descumprindo normas contábeis e apresentando valores sem comprovação. Por isso, a apresentação e o acompanhamento de documentos que comprovem as movimentações do clube são cruciais para adquirir empréstimos mais baratos com bancos, por exemplo, além da visibilidade positiva no mercado para com outros clubes e jogadores, afinal de contas, você, caso fosse um jogador de futebol, optaria por representar um clube cuja saúde financeira é recorrentemente apresentada ao público e tem, por consequência, a certeza da fidelidade do cumprimento dos salários, ou um cujos documentos mais apresentam inconsistências e quem sabe, dificuldades financeiras? Fácil responder.

Esses três pontos foram cruciais para a manutenção e existência do time que tanto encantou e encanta o Brasil em 2019 com um futebol ofensivo, de coragem, obediência tática e vitorioso. Fora das quatro linhas, no entanto, é preciso que (principalmente) os torcedores do time carioca exijam pressa e justiça para reparar ao menos um pouco, do estrago que o incêndio no Ninho do Urubu causou às famílias dos 10 jovens mortos no dia 08 de fevereiro de 2019, e que tem o seu ex-presidente indiciado no caso. Até o momento, o Flamengo chegou a um acordo com às famílias de apenas 4 dos 10 jovens, além das indenizações pagas às famílias dos 16 sobreviventes.

Dentro de campo, a reestruturação teve um marco com a chegada do hoje ídolo, Diego Ribas, ex-Santos e Seleção Brasileira. Diego só pôde ser contratado em 2016 após o início da reestruturação estatutária e financeira do clube, que obteve lucro recorde um ano antes de sua contratação, juntamente da adoção do Profut – projeto de lei assinado pela ex-presidente Dilma que auxilia na renegociação das dívidas dos clubes de futebol, federações e confederações. Detalhe: gastando cada vez menos!

Perfil das dívidas flamenguistas em 2013:

Fonte: Balancetes financeiros | Via Rodrido Capelo

O Profut (Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro), cujo objetivo é ajudar os clubes a pagar suas dívidas juntos do Governo Federal, permitia que as instituições quitassem seus débitos fiscais com um prazo estendido caso apresentassem contrapartidas que classificassem os clubes como aptos. Algumas das contrapartidas para se aderir o programa:

  • elaboração de relação, assinada pela diretoria e conselho fiscal
  • adiantamento de receitas
  • regularização de ações trabalhistas e tributárias vencidas a partir da publicação da lei
  • restrição de 4 anos para o período de mandato de um presidente (com direito a uma reeleição)
  • proibição da antecipação ou comprometimento de receitas de períodos posteriores ao da gestão em vigor
  • cumprimento dos contratos e regulamentação dos pagamentos relativos a todos os profissionais contratados

Como a maior fatia das dívidas do time carioca eram ligadas justamente às questões fiscais e trabalhistas, o clube conseguiu parcelá-las e obteve uma boa margem para manobra ao começar a quitar tais dívidas, que ainda se mantém, é verdade, mas que estão no caminho certo pois já foram negociadas pela antiga diretoria rubro-negra.

Além do Profut, houve também a criação de um programa de sócio-torcedor cuja adesão se deu de maneira generalizada pela torcida flamenguista – já são aproximadamente 145 mil sócios, o que lhes coloca como o clube com o maior número de associados no Brasil, à frente do Internacional (126 mil) e do Atlético (110 mil), segundo e terceiro colocados no quesito -, a diretoria soube, no entanto, utilizar de seu maior ativo (pouco explorado por grande parte dos integrantes da Série A Brasileira) para ajudar na alavancagem das receitas. O que foi essencial, juntamente do corte de gastos, vendas de atletas (de 2013 em diante) e aumento dos valores dos patrocínios, para que jogadores do quilate de Diego pudessem, enfim, chegar ao Flamengo.

Jogadores mais caros vendidos por ano segundo o Transfermakt, de 2013 a 2018 (valores em euros):

  • 2013 – Vágner Love (6 milhões)
  • 2014 – Hernane ‘Brocador’ (5,3 milhões)
  • 2015 – Samir (4 milhões)
  • 2016 – Jorge (8,5 milhões)
  • 2017 – Federico Mancuello (1,5 milhões)
  • 2018 – Vinícius Júnior (45 milhões)* e Lucas Paquetá (38,40 milhões)**

*Vinícius Júnior teve a sua venda contabilizada no balanço de 2017, com o restante dos pagamentos escalonados para os anos posteriores.

**Lucas Paquetá foi vendido em 2018 mas a contabilização da mesma ocorreu apenas no balanço de 2019.

Diego, assim como a política adotada pelo antigo mandatário rubro-negro, foi um marco na história do clube, e falaremos mais sobre o camisa 10 no nosso próximo texto sobre a Final ocorrida em Lima.

Uma Copa do Brasil (2013) e dois Campeonatos Cariocas (2014, 2017), além de 1 vice da Copa do Brasil (2017), da Sul-Americana (2017) e do Brasileirão (2018), foram o que os times representados pelos mandatos de Bandeira Mello conquistaram. Para muitos, soa como arrogância alguém alegar que são poucos triunfos, em quantidade e expressão. As glórias alcançadas pelo Flamengo nessa época poderiam vir acompanhadas de um sabor a mais, de superação e de que a fase de “penúria” estaria no fim, desde as disputas para fugir do rebaixamento até times um tanto quanto humildes tecnicamente vencendo a segunda maior competição nacional – mas não era bem assim que muitos viam àquele momento de incertezas e oscilações.

Se hoje o time de Jorge Jesus conta com atletas como Diego Alves, Rafinha, Filipe Luís, Gerson, Arrascaeta e Gabigol, em 2013, ano em que o clube conquistou a sua terceira Copa do Brasil e brigou para não cair, os torcedores se apoiavam em atletas como Marcelo Moreno, Hernane ‘Brocador’, André Santos, Renato Abreu, Elias, Ibson, Léo Moura, Chicão e Felipe como as suas principais referências técnicas em campo. Com o ganho financeiro sendo comumente destacado, é possível perceber, no entanto, que o ganho esportivo chega a ser imensurável. Muito mais do que as taças já levantadas, o prazer de ver esse time atual jogar faz com que a torcida se identifique com os jogadores cada vez mais, e desperte sentimentos até ontem esquecidos ou não vividos.

Histórico do clube nos campeonatos Carioca, Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores e Sul-Americana entre os anos de 2013 a 2018:

  • 2013 – Carioca: fase de grupos | Copa do Brasil: campeão | Brasileirão: 16º lugar (primeiro fora da zona de rebaixamento) | Libertadores: não disputou
  • 2014 – Carioca: campeão | Copa do Brasil: semifinalista | Brasileirão: 10º lugar | Libertadores: fase de grupos
  • 2015 – Carioca: semifinalista | Copa do Brasil: oitavas de final | Brasileirão: 12º lugar | Libertadores: não disputou
  • 2016 – Carioca: semifinalista | Copa do Brasil: segunda fase | Brasileirão: 3º lugar | Sul-Americana: oitavas de final
  • 2017 – Carioca: campeão| Copa do Brasil: vice-campeão | Brasileirão: 6º lugar | Libertadores: fase de grupos | Sul-Americana: vice-campeão
  • 2018 – Carioca: semifinalista | Copa do Brasil: semifinalista | Brasileirão: vice-campeão | Libertadores: oitavas

A reestruturação flamenguista já dava mostras do seu potencial, tanto nos balanços do clube quanto em campo (exceção do primeiro ano em que brigou, de fato, para não cair, mesmo com o título da Copa do Brasil), isso é apenas uma prova do quanto o planejamento, responsabilidade fiscal e criatividade para se alavancar receitas antes inimagináveis pode fazer um clube cuja dívida que se aproximava dos 800 milhões de reais há 6 anos, ser hoje, o mais “folgado” para efetuar quaisquer movimentos no mercado e alçar vôos ainda maiores com contratações de peso.

Sim, torcedor. Vale muito a pena ser responsável fiscal, apertar o cinto e viver alguns anos de seca de títulos de grande expressão para que o seu clube se mantenha em uma posição extremamente confortável no futuro. Cabe a nós, torcedores, cobrarmos dos presidentes dos clubes, às diretorias e todos os responsáveis por lidar com essas questões internas para que se busquem soluções inteligentes e que não comprometam o futuro dos clubes.

Esse Flamengo está aí para provar que é possível, dentro do limite de cada clube, que às instituições procurem se manter dentro da linha, prezando sempre pela saúde financeira, buscando pagar dívidas e gastar menos do que se arrecada, para enfim visar um lugar ao sol mais à frente.

Sem dúvidas de que esse clube, time e torcida tiveram muitos dias de luta para que pudessem chegar a hoje, os tão aguardados dias de glória. Por isso, queremos saber de você qual a sua opinião a respeito da reestruturação ocorrida dentro do time rubro-negro, se você teria a paciência necessária (mesmo sabendo que os títulos podem não vir tão depressa) e se você acredita que esse deve ser o caminho dos clubes brasileiros para que o Campeonato não se torne uma competição de um só time.

*Foto via Gettyimages.

2 comentários em “Libertadores da América – Final: River Plate 1 x 2 Flamengo – um exemplo a ser seguido (Parte 1)

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