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O processo de formação dos Meninos da Vila

Quando se fala em Santos Futebol Clube, as primeiras coisas que veem à cabeça são: Pelé, Neymar, Robinho, Diego e companhia. Não é mesmo?

Um deles, considerado o melhor jogador do século pela FIFA, e o outro, o melhor brasileiro em ação (por anos) no futebol nacional e também no cenário europeu. Claramente estamos nos referindo respectivamente ao Pelé e ao Neymar, ambos revelados por uma das melhores bases do mundo e que são subconscientemente associados ao clube paulista: os Meninos da Vila são o Santos Futebol Clube, e o Santos é os Meninos.

Um dos maiores clubes do Brasil, o alvinegro praiano soma 8 Brasileiros (5 Taças Brasil, 2 Brasileirões e 1 Torneio Roberto Gomes Pedrosa), 3 Libertadores da América, 1 Copa Conmebol, 1 Recopa Sul-Americana, 1 Copa do Brasil e 22 Paulistas. Temos mais títulos na lista, mas ficaremos com “apenas” esses, acredito já ser o suficiente para demonstrar a grandeza quantitativa de um clube.

Grande parte dos títulos conquistados pelo Santos foram marcados pela presença de jovens jogadores justamente revelados nas categorias de base do Peixe, fato que, não só eleva o clube ao patamar de um dos maiores formadores do país, mas também pelo que nós entendemos como o conjunto mais correto a ser feito, que é: formar, conquistar e vender (bem).

Blog do Eldoradense: 2012
Robinho e Diego comemorando o título do Brasileiro de 2002

Segundo um levantamento feito pelo Centro de Memória do Santos, 127 atletas criados no clube já foram postos a campo trajando o manto alvinegro:

Não só no cenário nacional muitos desses jogadores fizeram sucesso, mas também em terras europeias. O Santos é, ano após ano, um dos clubes que mais atletas coloca nas edições da Champions League e também nas competições de elite do Velho Continente. Em 2019, por exemplo, o Peixe se manteve ao lado do Athletico-PR e do rival São Paulo como sendo as agremiações com mais revelações a atuar pela Champions, com 7 cada um. Neymar (PSG), Rodrygo (Real Madrid), Júnior Moraes e Alan Patrick (Shakhtar Donetsk), Emerson Palmieri (Chelsea), Marcelo (Lyon) e Thiago Maia (LOSC Lille) foram os atletas santistas, na ocasião.

O processo de formação na Vila Belmiro

É evidente que a repetição leva à perfeição e, o trabalho com crianças, adolescentes e toda o processo de formação não só de atletas, mas de pessoas em primeiro lugar, faz com que o time paulista consiga resultados primorosos, tamanha a expertise em seu negócio. Em uma palestra realizada em 2017, cujo palestrante foi Ronaldo Lima – coordenador da base do Santos FC -, ele explicou como se dá o processo de integração e toda a conjuntura que leva o clube a desenvolver e subir tantos jogadores.

Jogadores e outras personalidades do futebol profissional sempre estão presentes desde os primeiros níveis da base, nesse caso, o sub-11. Esse papel vinha sendo desenvolvido por Elano, ex-jogador multicampeão pelo Santos que hoje comanda o Inter de Limeira, e era ele o responsável por gerir e participar da integração dos Meninos com a equipe principal, sendo que, atletas do sub-15, sub-17 e sub-20 treinavam junto dos profissionais uma vez por semana. Essa participação é bastante necessária pelo fator influencial, de representatividade, e também pelo fato de que o clube possui(a) uma meta de formação e participação no time A entre 4 a 8 jogadores por ano. Números altos até mesmo para o Santos.

Como dito anteriormente, o trabalho de formação de pessoas está à frente do de jogadores, pelo menos é o que dizia o coordenador da base, e por isso, além dos processos de fortalecimento técnico, o trabalho realizado por pedagogos, assistentes sociais e psicólogos é crucial nessa fase da vida, especialmente pela carga inserida sobre os ombros de pessoas tão jovens, e que normalmente representam o sucesso ou o fracasso do presente e do futuro de toda a família. Assim como os jovens, os pais dos atletas gozam do privilégio de possuir psicólogos disponíveis para lhes atender na própria organização.

Ao final de tudo, é preciso lembrar que a fama (de clube formador) traz maiores responsabilidades ao Peixe, muito por isso, a escolha criteriosa e a observação de atletas é feita por ex-jogadores, como foi o caso de Elano, que também possuem o papel de não só analisar, mas buscar gerar especialistas em cada função e com suas características cada vez mais potencializadas.

A especialização leva a perfeição

Assim como a ligação entre os atletas e funcionários tem um elo bastante pessoal quando falamos a respeito do campo educacional e de construção social no clube, a operacionalização de todos os níveis de base parte do princípio de pessoalidade, fator primordial para uma maior aproximação e consequente conhecimento em relação aos atletas em si e todo o seu histórico familiar, corporal e mental. Cada competência, seja ela a sub-11, sub-13 ou sub-15 em diante, possuem suas próprias estruturas físicas e técnicas: desde o roupeiro até o supervisor.

Como não poderia ser diferente, os treinamentos também dispõe de suas próprias especificações técnicas de acordo com a faixa etária do atletas, visando uma maior personalização e busca pela especialidade.

“A base é o lugar de errar. Temos que entender que o atleta está em processo de formação. Os treinadores, na ânsia de ganhar o jogo, muitas vezes não são tolerantes. Todo jogador é um artista e gosta de ser elogiado, mas precisa ser corrigido também. Nós passamos mais tempo no clube do que em casa, por isso devemos nos tolerar.”

Ronaldo Lima em 2017

E é onde se pode errar que a tentativa é recompensada, logo, existe todo um trabalho para que os garotos aprendam a ser versáteis em campo e a utilizar os dois pés em meio às partidas, nem que seja o mínimo necessário para que o refinamento técnico possa vir a ocorrer nas camadas superiores. Algo que os treinadores e todo o setor de base busca priorizar, no entanto, é o desenvolvimento natural, alinhado a dietas e acompanhamento regular de treinos, do corpo do atleta, evitando assim grandes alterações no biotipo dos garotos, visto que o foco principal é o bom trabalho com a bola nos pés.

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Neymar (17) em sua estreia diante do Oeste, pelo Campeoanto Paulista de 2009

Afinal de contas, quem não se lembra de um franzino estreante no time principal do Peixe em março de 2009?

Até o final de 2015, o clube da Vila Belmiro contava com aproximadamente 160 funcionários divididos nas cinco categorias de base, que preza pelo DNA ofensivo e busca maior ofensividade desde as primeiras camadas em busca de uma maior liberdade ao futebol dos atletas que, caso completem todos os passos e possuem os requisitos técnicos e sociais para integrarem o time principal do clube, logo menos poderão se provar num nível ainda mais exigente e se tornar a mais nova revelação santista.

O mau planejamento e a realidade

Como nem tudo são flores, é evidente que os processos gerenciais e práticos nem sempre ocorrem da melhor maneira, é assim na base e também no time principal e, principalmente na parte gerencial do clube. Muito por isso, não é exclusividade desse ou daquele mandatário recorrer à base para tapar buracos outrora destampados por um planejamento errado ou ineficaz.

Foi assim no início dos anos 2000, quando o clube havia investido na contratações daqueles que chamamos de medalhões e se viu sem recursos financeiros suficientes em meados de 2002, e o então presidente Marcelo Teixeira recorreu a aqueles que seriam o suprassumo do termo Meninos da Vila. Nascia, naquele ano, a geração de Robinho e Diego, que em companhia de Elano, Renato, Léo e outros, foram responsáveis por reerguer o clube e arrecadar títulos e inúmeras quantias financeiras para o alvinegro paulista. Outros atletas com mais experiência chegaram, e em 2004 veio mais um Brasileirão, além dos Campeonatos Paulistas de 2006 e 2007 e claro, o vice da Libertadores de 2003.

CT Meninos da Vila - Esportes - Estadão
CT cujos campos se chamam Robinho e Diego, em homenagem aos Meninos da Vila

Após as conquistas vieram os patrocínios que outrora não estavam disponíveis para a agremiação, e a culminação de uma extraordinária venda elevou ainda mais o status quo do clube: Robinho iria para o Real Madrid por 30 milhões de dólares. O momento parecia o ideal para firmar a saúde financeira do clube, entretanto, o que se viu foram mais apostas em nomes rodados aliados a má fase do clube e de suas contas. Em 2009, o mandatário perdeu a eleição e partiu deixando o Santos em uma posição delicada, afinal, as contas não fechavam.

Mais uma vez, e após se relacionar com atletas que pouca atenção chamavam dos grandes clubes brasileiros, o Peixe se viu sem saída se não recorrer à base, e foi na badalada e magnífica geração de Neymar, Ganso, André, Rafael Cabral, Alan Patrick, Felipe Anderson, Adriano e companhia, que o Santos somou conquistas memoráveis e mais dinheiro em caixa: foram uma Libertadores da América, uma Copa do Brasil e três Campeonatos Paulistas, além do vice no Mundial e diversas vendas que desmembraram o time campeão.

Santos Campeão da Libertadores 2011 – O melhor técnico da América ...
Foto do campeão: Libertadores de 2011

O cenário se repetiu, jogadores saíram enquanto grandes quantias entraram e as contas, por incrível que pareça (ou não), continuam sem fechar. A aposta em nomes badalados e consequentemente caros, fez e faz com que o Santos precise recorrer regularmente a suas categorias de base em busca de um novo milagre, ou melhor, de um novo Robinho, Diego, Neymar, etc.

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O Santos possui (há tempos) o que poucos clubes brasileiros têm: um DNA formador, e não só isso, uma formação de reconhecidos e vitoriosos atletas. A capacidade de boas gestões em potencializar os clubes que comandam e também os times que são levados a campo é semelhante, se não menor, ao estrago que péssimas gestões e escolhas erradas podem fazer e permear por anos dentro das agremiações.

Um clube do tamanho do Peixe não pode se dar ao luxo de se manter no segundo escalão nacional, tamanha a sua história e capacidade de movimentar e emocionar milhões de torcedores. É preciso, portanto, que o trabalho continue sendo feito de maneira correta, formando, conquistando e vendendo (bem). E isso, o Santos faz com primazia.

Mais um texto em que apresentamos não só parte do processo, mas também a importância de se manter uma base e um clube financeiramente saudável. São eles que irão se manter no topo daqui a uns anos, e serão eles que ditarão o funcionamento do jogo e da estrutura gerencial da elite do futebol nacional e mundial.

Comente aqui quais o que você acredita ser primordial no processo de formação de atletas, e quais clubes no Brasil você acredita estar em primeiro lugar quando o assunto é captar, criar e desenvolver jogadores.

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