Artigos Home & News

O futuro já chegou no futebol – Moneyball, é você?

A análise de jogos e jogadores por meio de dados e estatísticas avançadas tem se tornado cada vez mais recorrente no mundo do futebol, algo não tão novo em outros esportes como o beisebol e o basquete. Em tempos de coronavírus e com cada vez menos olheiros “tradicionais” em jogo, as plataformas que visam oferecer tais informações analíticas tem sido cada vez mais requisitadas, por isso, é certo dizer: o futuro já chegou no futebol, e quem não acompanhá-lo perderá vantagem competitiva e, por consequência, financeira e esportiva.

“Moneyball” ou, em português, “O homem que mudou o jogo” é um filme que conta a história de Billy Beane, gerente geral do Oakland Athletics, time de beisebol que disputa a maior liga do planeta, a Major League Baseball (MLB).

A história é um filme diário para grande parte dos clubes pequenos, médios e grandes do Brasil e do mundo, que, devido ao mau (ou nenhum) planejamento, não sabem como medir suas conquistas e fracassos, baseando-se puramente na sorte e no acaso.

Com o time do A’s vivendo uma péssima fase nas finanças, Billy tem a missão de contratar jogadores para o elenco de 2002, porém, como ele poderia fazê-lo com uma das menores folhas de pagamento da liga? Hoje parece fácil e bastante palpável entender todo o contexto, mas a resposta seria e continua sendo: não jogar o mesmo jogo dos times grandes e ricos, ou seja, era preciso inovar no momento da captação e das contratações.

Para isso, Billy encontra Peter Brand (que fez o papel de Paul DePodesta, na vida real), um expert de 24 anos em análises estatísticas e de dados, que até então trabalhara no Cleveland Indians, e que juntos, foram responsáveis por montar um elenco composto por atletas subvalorizados com um potencial muito maior do que as finanças do Oakland permitiriam, chegando inclusive aos playoffs de pós-temporada da MLB daquele ano.

Os exemplos no futebol

A 20 minutos do estádio de Wembley, na Inglaterra, existe uma cidade chamada Brentford e que é sede do time que carrega o nome da própria cidade e se encontra em 4º lugar na segunda divisão nacional, a 10 e 11 pontos do acesso direto e do título, respectivamente. O Brentford possui dois dirigentes, sendo um deles o diretor de futebol, Rasmus Ankersen.

No início de 2016, seus diretores decidiram não mais participar de torneios juvenis devido a grande procura pelos grandes clubes da Inglaterra e também do exterior em contratar suas jovens promessas, deixando assim, apenas a equipe B em pleno funcionamento juntamente do time principal. Tamanha a caça pelos talentos das Abelhas, como um time pequeno do sul do Reino Unido poderia competir com Manchester City, United, Arsenal, Spurs, etc? Na verdade não podem e, tal como Billy e Peter fizeram, o Brentford tem aplicado com maestria essa nova abordagem: é preciso jogar outro jogo, diferente do que é comungado entre os grandes e ricos, por isso, a busca por cada vez mais dados e estatísticas que mitiguem os riscos são cruciais para o sucesso do clube não só no mercado de transferências, mas de modo geral.

Rival do United tem dono 'doente' por números e milionário por ...
Matthew Benham e Rasmus Ankersen

Presidente do FC Midtjylland, Rasmus tem em Matthew Benham o seu companheiro ideal em ambos os clubes, e como Billy e Peter, eles transmitiram a mesma filosofia para as agremiações futebolísticas: utilizar modelos matemáticos como base para as estratégias do mercado de transferências. Matthew fez a sua fortuna no setor de apostas, onde fundou uma empresa com experts matemáticos que lhe fornecessem combinações de algoritmos que viessem a lhe garantir altos rendimentos nos jogos. Atualmente, Benham é o dono do Brentford – clube pelo qual é torcedor desde criança -, e o fez após investir muito dinheiro como patrocinador e não receber o devido retorno em campo. Em 2014, o expert também adquiriu o FC Midtjylland, e os homens fortes de ambos os clubes já foram capazes de não só mudar a filosofia de trabalho de toda a organização, como também por conquistar 2x a Primeira Divisão e 1x a Copa da Dinamarca. Atualmente, o clube dinamarquês é o líder disparado da Superliga com 12 pontos a frente do segundo colocado.

Neal Maupay, o case de sucesso

Neal Maupay speaks to the press - News - Brentford FC
Neal Maupay nos tempos de Brentford

Neal Maupay (23), hoje atacante do Brighton & Hove Albion, possui dupla nacionalidade e, apesar de já ter vestido a camisa da França Sub-18, ele poderia ter sido convocado para a Argentina (principal), devido aos seus laços maternos. Criado no Nice, Maupay sempre foi uma joia a ser lapidada que conta com um ótimo poder de finalização, entretanto, nunca chegou a explodir, de fato. Assim como Neal sempre fora uma “eterna promessa”, ele também era ideal para o Brentford, segundo o diretor dinamarquês:

“Maupay não era o jogador perfeito. […] Se perguntasse na França, diziam que ele era um jogador um tanto quanto agressivo, com raiva. É preciso entender quais problemas você pode corrigir e quais não pode.”

Rasmus Ankersen, em entrevista a TalkSport

“Se um jogador já estiver pronto, o Brentford não terá condições de contratá-lo. Trazemos os talentos sem polir e buscamos melhorá-lo. Maupay era um jogador talentoso e que chegou a Ligue 1 aos 16 anos.”

Rasmus Ankersen, em entrevista a TalkSport

Mais tarde, Maupay se tornaria o melhor jogador da Championship (Segunda Divisão Inglesa) e seria vendido pelo montante de 19.8 milhões de libras esterlinas, a maior venda da história do clube, que desembolsou míseros 1.6 milhões de libras para adquirir os serviços do atleta. Análises. Após a saída de Neal, o Brentford continua a contar com outros bons nomes e que provavelmente terão o mesmo destino que o franco-argentino, como Saïd Benrahma, Brian Mbeumo e Ollie Watkins – todos com menos de 24 anos e que dão nome ao trio BMW do ataque das Abelhas.

“O potencial sempre esteve ali. O que fazemos, no entanto, é procurar jogadores com esse potencial e analisar o contexto: por que eles não atingiram o seu potencial? É como procurar uma ação subvalorizada, comprando-a e vendendo-a a um preço mais alto”

Rasmus Ankersen, em entrevista a TalkSport

Abaixo, uma tabela com alguns dos lucros obtidos com as transações dos ex-atletas do Brentford:

Neal Maupay para o Brighton – £ 18,2 milhões de libras (comprado por £ 1,6M, vendido por £ 19,8M)
Chris Mepham para o Bournemouth – £ 12,2 milhões de libras (formado na divisões inferiores, vendido por £ 12,2M)
Andre Gray para o Burnley – £ 10,65 milhões de libras (comprado por £ 550k, vendido por £ 11,1M)
Ezri Konsa para o Aston Villa – £ 9,5 milhões de libras (comprado por £ 2,5M, vendido por £ 12M)
Scott Hogan para o Aston Villa – £ 8,7 milhões de libras (comprado por £ 750k, vendido por £ 9,5M)
Ryan Woods para o Stoke – £ 5,5 milhões de libras (comprado por £ 1M, vendido por £ 6,5M)
Jota para o Birmingham – £ 4,5 milhões de libras (comprado por £ 1,2M, vendido por £ 5,7M)

O Brentford possui o quarto orçamento mais baixo da Championship, mas ocupam o quarto lugar na tabela e, de acordo com o seu xG, suas performances o tornam o segundo melhor time da liga nesta temporada, atrás apenas de Leeds United, logo, não se trata de um erro estatístico ou o acaso, como foi com o Newcastle, demonstrado pelo próprio Rasmus no (excelente) vídeo abaixo:

Como dito pelo dinamarquês, a “tabela do futebol sempre mente” e o que deve ser feito é justamente o que se espera com a ajuda dos dados e das estatísticas: buscar diminuir as margens de erro e mitigar que apenas a sorte acompanhe trabalhos, enquanto devem prevalecer o planejamento estratégico e as ferramentas de medição de todo o processo.

Com a crise sanitária vivida por todo o mundo atualmente, é preciso investir e pensar ainda mais fora da caixa. Clubes que já se baseiam em estatísticas a algoritmos para buscar novos talentos e melhorar suas performances dentro e fora de campo certamente estarão à frente dos demais em qualquer métrica disponível, seja ela puramente futebolística ou financeira, social e organizacional.

O jogo imita a vida, e num dos mercados mais irracionais de todos, é preciso ter o mínimo de sanidade e visão de negócio para poder alterar os moldes das organizações pelas quais morremos de amores: os clubes de futebol. Quem se atualiza, expande não só o seu mercado como também a sua abordagem em diferentes situações e obstáculos do jogo.

Comente aqui como você acredita que os clubes possam melhorar suas performances dentro e fora de campo, baseando-se em dados e análises estatísticas. O que o futuro dirá sobre quem não se adaptou?

*Foto: Claus Fisker

0 comentário em “O futuro já chegou no futebol – Moneyball, é você?

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: