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O Uruguai e a renovação à lá “Baby Fútbol”

Com duas Copas do Mundo conquistadas, duas medalhas de ouro em Olimpíadas e quinze títulos de Copa América, o Uruguai vive uma constante reinvenção em sua formação futebolística, tamanho o desafio em produzir bons atletas com uma população tão pequena.

O país charrua só ultrapassou a marca dos três milhões de habitantes no ano de 1985, cujos números se assemelhavam aos das populações da Nicarágua (3,7 milhões) e da Costa Rica (2,7 milhões). Atualmente, as populações nicaraguenses e costa riquenhas giram em torno dos 6,4 e 5 milhões, respectivamente, enquanto que o Uruguai ultrapassa por pouco os 3,5 milhões.

E se os números já são “ruins” se comparados com os países presentes na América do Sul – o Uruguai é apenas o 10º colocado no quesito população -, ficando à frente apenas da Guiana e do Suriname, eles ficam ainda menos vistosos quando comparados com o resto do mundo: o país ocupa a 130ª posição de 193 países com mais habitantes em seu território, atrás de nomes como o Oman, Geórgia e Libéria.

Seja pela inerente atividade pecuária no país, que utiliza pouca mão de obra para o controle dos pastos e que não gera tantos atrativos para o movimento imigratório da força de trabalho, baixa natalidade, expectativa de vida alta e a emigração dos mais de 550 mil uruguaios, sendo grande parte deles jovens em idade produtiva, o país tem se reinventado cada vez mais quando o assunto é a revelação de talentos futebolísticos, quebrando barreiras demográficas no processo de renovação do futebol dos clubes e da seleção azul celeste.

Pois bem, em um pais tão apaixonado pelo esporte de bola e tão menor (em termos populacionais) que os seus maiores rivais do futebol, o que explica o sucesso e a execução de um processo tão bem feito?

Imagem: Diario Crónicas

A cultura e o fenômeno do Baby Fútbol

Criado e gerido pela ONFI – Organização Nacional de Futebol Infantil, entidade hierarquicamente abaixo da Secretaria Nacional do Esporte e que tem como função conduzir estrutura e financeiramente o projeto, oferecendo inclusive a habilitação necessária aos dirigentes e treinadores dos clubes, o Baby Fútbol compreende crianças que possuem entre 6 e 13 anos de idade, e tem como objetivos:

  • Promover uma atividade benéfica para a formação integral de cada menino, menina e adolescente;
  • Estimular meninos e meninas a jogar futebol, com ênfase nos aspectos sociais, educacionais e recreativos, acima da competição;
  • Promover espaços para a prática do futebol voltado para crianças e adolescentes, que se tornam espaços educacionais de socialização; onde valores e habilidades para a vida são promovidos, apostando em transcender a competição esportiva;
  • Organizar, estimular e direcionar a melhoria de todas as instituições do meio ambiente, promovendo a realização de cursos de capacitação para gerentes, assessores técnicos, árbitros e pais, promovendo a melhoria do futebol infantil;
  • Estabelecer as condições, categorias e formas de desenvolvimento do futebol infantil no território nacional, buscando a participação de crianças de ambos os sexos, sem distinções de qualquer espécie.

Dito isso, é preciso entender o contexto no qual o país está inserido: segundo Roberto Pastoriza, secretário de seleções desde 2014, o futebol é praticado por aproximadamente 85% das crianças em idade ativa do Baby Fútbol, e que tem Óscar Tabárez (téc. da Seleção Uruguaia) como um de seus grandes entusiastas. Segundo o Maestro, ele não imaginaria “o futebol uruguaio chegar onde chegou sem a ajuda do baby fútbol”, e completa dizendo que grandes nomes do passado e também do presente vieram de lá, como “Enzo Francescoli, Álvaro Recoba, Batista e Paolo Montero, todos saíram da modalidade infantil”, além de Diego Forlán, Luis Suárez e outros.

No “jardim de infância” do futebol uruguaio, estima-se que são realizadas 2.000 partidas por semana, cuja participação conta com mais de 300.000 pessoas, além de 60.000 crianças e 120.000 pais que tem a missão de acompanhar os niños e niñas. Ao todo, existem aproximadamente 598 clubes e 62 ligas, que são distribuídas entre os 19 departamentos – semelhante ao que conhecemos como os estados brasileiros -.

Baby fútbol: el jardín de infantes del milagroso fútbol uruguayo ...
Imagem: ONFI

“Minha opinião sobre o futebol infantil é monstruosa. É um exemplo mundial. Há alguns anos, os japoneses começaram a estudar futebol infantil uruguaio porque não podiam acreditar. Está em cada bairro, em cada esquina e em cada canto [do país]. Que desses três milhões continuem saindo [outros] Suárez, Cavani, Forlán. O futebol uruguaio é um milagre “

Paolo Montero, atual treinador e ex-jogador de futebol

Entre os pais e mães que se reúnem para vender produtos e colaborar com os clubes e com os gastos dos times, Tabárez destaca que o Baby Fútbol é um fenômeno social muito mais abrangente do que apenas uma tradição familiar no país, e que possui, inclusive, a capacidade de atrair mais pessoas do que no futebol amador e profissional. Apesar do apadrinhamento da ONFI, Tabárez destaca o ambiente “hipercompetitivo” presentes nos campeonatos, além de citar a falta de estrutura não só física mas também na própria formação dos jovens, que jogam em “pisos deficientes” e que “chegam como produtos inacabados e com problemas de fundamentos básicos”.

Por fim, o treinador multicampeão reforça a eficiência do processo ao exemplificar que no México, país cuja população ultrapassa os 126 milhões de pessoas, as crianças iniciam no esporte por volta dos 12 anos, enquanto que no Uruguai essa é a fase de transição do jovem para o futebol infantil – que também conta com falhas e acaba por perder muitos talentos devido a falta de acompanhamento entre os 12 e 14 anos -, permitindo-lhes alçar vôos maiores.

Fútbol Infantil: fue acordado el fixture de selecciones | HOY ...
Imagem: Hoy Canelones

Estrutura e organização

Com a utilização das mesmas regras que regem o futebol profissional, apenas as de nº 1, 2, 3 e 7 possuem modificações, além de que, a regra 11 que corresponde a do “impedimento”, não é aplicada ao futebol infantil, assim como a regra 12 de “faltas e erros”, que possui detalhes modificados visando as crianças de 5 a 10 anos, tal como a “falta técnica do goleiro”, que não é punitiva como nos níveis superiores, mas fica a cargo do árbitro explicar os funcionamentos do jogo aos garotos e garotas. Cartões amarelos ou vermelhos não devem ser mostrados para jogadores com menos de 10 anos de idade, eles são punidos de acordo com a regra, mas o árbitro deve informar o delegado da equipe.

La cancha de los Bomberos
Imagem: Bomberos de Concepción

Com traves menores e campos reduzidos que variam entre 50 x 33,5 (mínimo) e 60 x 40 (máximo) metros de comprimento, as equipes em campo possuem menos jogadores que o tradicional onze contra onze, utilizado apenas nos últimos anos da categoria.

A formação não se faz presente apenas nas crianças, mas também para os pais, técnicos e árbitros das partidas, que possuem um peso tanto esportivo quanto, principalmente, social. Apesar disso, é evidente que a paixão e a “garra uruguaia” esteja emaranhado nos ensinamentos passados dos pais aos seus primogênitos, que como salientou o Maestro, acabam por produzir atletas apaixonados pelo futebol mas com certas alterações em sua criação (técnica e mental).

Tal como dito pelo campeão Paolo Montero, é esperado que surjam cada vez mais novos (bons) jogadores, também por isso, é evidente a participação de olheiros e dos clubes profissionais no entorno das competições, em busca de encontrarem a mais nova estrela uruguaia. Seja com a atitude tomada pelo clube profissional ou pelo clube do baby fútbol, as crianças tem a possibilidade de integrarem as duas equipes ao mesmo tempo, podendo acrescentar-lhes ainda mais em aspectos técnicos, físicos e psicológicos.

Com campeonatos e modalidades tão abrangentes não só a uma parte ou classe social, mas a todo o país, o baby fútol tem se provado cada vez mais um ótimo projeto e iniciação no esporte e na formação pessoal dos atletas. Evidentemente que todo processo é sujeito a debilidades e falhas, que só são corrigidas com a devida observação dos atores presentes nas canchas dia sim e dia também.

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