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Exclusivo: PFTF conversa com Paulo Freitas, pesquisador chefe do Football Manager no Brasil

Conversei com Paulo Freitas, o pesquisador chefe (head researcher) do game Football Manager aqui no Brasil, e falamos a respeito do seu papel na companhia, futuras promessas, dificuldades na prospecção dos atletas e mais.


Mundialmente conhecido, o game Football Manager, popularmente conhecido como FM, é uma série de jogos de simulação de gerenciamento de futebol desenvolvida pela Sports Interactive (SI) e publicada pela SEGA.

O jogo teve seu início em 1992 quando ainda era chamado de Championship Manager, no entanto, a série Football Manager surgiu após o termino do contrato de desenvolvimento entre a Sports Interactive e a Eidos Interactive em 2004, que juntas assumiam o título de outro jogo. Com o fim da parceria, a Eidos Interactive manteve a patente do nome, Championship Manager, e a Sports Interactive (SI) a patente do código fonte e a completa e extensa base de dados do jogo.

Em 2005 a Sports Interactive (SI) lançava, em parceria com a SEGA, sua versão do Championship Manager sob o nome de Football Manager 2005, que se tratava na verdade do mesmo Championship Manager com outro nome e melhorias que o diferenciavam de seu antecessor. Em 2006, após o fiasco da nova versão do Championship Manager, o Football Manager se firmou no mercado, se tornando o principal título do gênero até hoje – a versão mais recente do jogo, intitulada Football Manager 2020, foi lançada em 31 de outubro de 2019.

No Football Manager, o jogador assume o papel de um manager de uma equipe de futebol profissional (que, além de atuar como técnico do time, também cuida de boa parte dos assuntos financeiros do clube) e todas as sua responsabilidades. As possibilidades de interação disponíveis no jogo são vastas e a proximidade com a realidade também, e vão desde um simples comentário a imprensa antes de um clássico, passando pela elaboração de táticas e sistemas de treinos até o triunfo em um dos diversos campeonatos existentes no jogo.

Koeman encarou desafio de FM com um dos criadores do jogo. E ...
Ronald Koeman, ex-técnico do Everton-ING jogando FM em um desafio

Agora que você já sabe do que se trata o game, vamos saber um pouco mais sobre o entrevistado, afinal de contas, ele é o principal prospectador da SI em terras brasileiras, que a convite do Players For The Future, aceitou conversar um pouco mais sobre o jogo.

Entrevista

PFTF: Antes de qualquer coisa, gostaria que você comentasse um pouco da sua trajetória profissional: quem é o Paulo Freitas e como foi a sua ingressão no Football Manager?

PF: Fora da pesquisa de Football Manager, eu trabalho como advogado, profissão pela qual sou graduado. A respeito do game, porém, o meu início se deu na parte de pesquisa do Football Manager como assistente do pesquisador chefe anterior que, com a sua eventual saída, fui promovido para o seu lugar.

Além de atuar como uma espécie de “olheiro chefe” da Sports Interactive e também como advogado, Paulo é bilíngue e correspondente da Sky Sports, onde já produziu textos indicando jovens promessas e até mesmo jogadores que se encaixariam em grandes clubes ingleses, apresentando suas características, valores de mercado e o histórico dos atletas por ele sugerido.

Como um bom pesquisador, ele sabe que é cada vez mais presente o uso de ferramentas que contenham análises estatísticas, vídeos e demais informações a respeito dos atletas de futebol profissional e que auxiliem as pessoas que trabalham como analistas, olheiros e demais funções no âmbito da observação de atletas. Assim sendo, é evidente que o olheiro tradicional, do qual nos acostumamos a ver no passado e que se voltava de maneira exclusiva para o gramado em busca de conhecer e observar os jogadores, esteja em extinção.

A prospecção dos atletas

PFTF: Em tempos de pandemia, o scout in loco se tornou quase que inexistente, por isso, vocês que realizam trabalhos semelhantes aos de um olheiro, utilizam quais ferramentas e plataformas para construir uma análise? Qual a função de um Head Reseacher na prática?

PF: A função do head researcher é coordenar a pesquisa dentro do próprio país (ao qual ele foi designado), interagir com os pesquisadores de outros países e com a SI. Nós utilizamos diversas ferramentas e sites de estatísticas, particularmente eu gosto muito do WhoScored e do FutDados, por exemplo.

Mesmo com plataformas que auxiliem às pesquisas mais profundas, como as que envolvem equipes de divisões inferiores e, que consequentemente se encontram situadas na parte de baixo da hierarquia do futebol, nem sempre é possível se obter os melhores resultados, tamanha a falta de informações.

PFTF: Quais as maiores dificuldades que os pesquisadores e analistas da Sports Interactive enfrentam durante os momentos de pesquisa – principalmente em se tratando de times inferiores e pouco conhecidos pelo público em geral?

PF: A maior dificuldade é encontrar pesquisadores que assistam regularmente os times de divisões inferiores e as divisões de base, já que no Brasil não temos a cultura de acompanhar estes torneios – algo um pouco diferente do que ocorre em alguns países europeus, como na Itália e na Inglaterra.

A mensuração dos atributos

Seja pela falta de olheiros disponíveis ou até mesmo pela falta de informações cedidas pelos clubes, federações/competições e também pelos próprios atletas, a mensuração dos atributos dos jogadores tende a ser algo bastante complexo, especialmente dos menos conhecidos, conforme dito anteriormente.

Os atributos dos atletas no game são divididos entre três grupos: técnicos, mentais e físicos. Cada atributo corresponde a quão qualificado é aquele atleta em relação a uma característica específica, e são medidos em uma escala que vai de “1 a 20”, sendo “1” muito fraco e “20” muito forte.

Exemplo: Neymar é um dos melhores dribladores do mundo, na atualidade, por isso, o seu atributo de drible (no jogo) está classificado com a nota máxima (20):

Perfil do brasileiro Neymar Jr. no Football Manager 2020 – Foto: fmdataba.com.

PFTF: Qual a categoria de atributos é mais difícil de ser calculada (mentais, técnicos ou físicos)?

PF: Com certeza a mental, pois é muito mais complicado observar com detalhes as características de cada atleta, só se percebe mais nitidamente nos casos mais extremos, como jogadores mais problemáticos, por exemplo.

E por mais que a empresa já tenha anos de mercado e uma expertise acima do normal para o setor, Paulo recomenda o bom senso para evitar supervalorizações dos atletas (seja para o bem ou para o mal).

PFTF: Certamente que vocês já possuem algoritmos para melhor mensurar os atributos de cada atleta, porém, como isso se dá na prática?

PF: Nós temos um sistema para reduzir a chance de erros mais absurdos, como jogadores demasiado superestimados, etc. Mas na prática, muito da pesquisa é subjetivo, por isso ter bom senso é sempre uma ótima ferramenta também.

Base de dados

Além da utilização das ferramentas habituais para a prospecção de atletas, alguns clubes – como foi o caso do Everton em 2008 – já utilizaram e utilizam da base de dados da Sports Interactive para ir em busca de um “novo Neymar”, isso, porém, ainda não aconteceu com os clubes brasileiros, segundo conta.

PFTF: Devido à base de dados do jogo ser tão vasta e completa, houveram procuras por parte dos clubes em busca de jovens promessas? Poderia dizer quais clubes possuem as melhores estruturas (voltadas para a base) no Brasil?

PF: Diversos clubes grandes no Brasil têm uma excelente estrutura voltada para a base, como por exemplo o Palmeiras, Atlético Mineiro, Flamengo, São Paulo, Grêmio e Inter. Nenhum clube nunca nos procurou para buscar novas promessas, mas jornalistas estrangeiros, por exemplo, já pediram informações sobre os atletas.

Não podendo ser diferente, ele avalia algumas das principais (e possíveis) estrelas presentes em solo brasileiro.

PFTF: Como você trabalha diretamente com a base de dados do game e, além disso, é o olheiro principal da empresa no país, poderia dizer quais os jovens mais talentosos habitam os gramados do Brasil atualmente?

PF: Fora os jogadores já bem firmados como o Antony (São Paulo) e o Talles Magno (Vasco da Gama), existem vários jogadores jovens e talentosos no Brasil com potencial para se destacar bastante no futuro, como o Lázaro do Flamengo, o Gabriel Veron do Palmeiras, o Kaio Jorge e o Renyer do Santos, que são alguns dos quais me lembro.

Ousmane Dembélé é outro francês amante do game

Dicas, seu melhor save e o futuro do game

PFTF: Seja para realizar trabalhos ligados ao próprio Football Manager, mas também ao futebol de modo geral, quais dicas você daria às pessoas que possuem esses mesmos interesses profissionais em mente?

PF: Elas têm que se dedicar muito e ter paciência. Quanto à realizar trabalhos ligados ao Football Manager, o melhor jeito de ajudar a pesquisa do jogo é apontar erros e dar sugestões de forma construtiva.

PFTF: Em qual save você mais se divertiu no game, e porquê?

PF: Foi na versão de 2019 (FM 2019), quando acabei por jogar um save com vários times brasileiros e depois treinei a própria Seleção Brasileira. Foi divertido ver jogadores desenvolvidos nos times que eu treinei chegarem até a Seleção – e serem comandados por mim novamente.

PFTF: Com o jogo não sendo vendido no Brasil desde a versão 2017 e o iminente aumento de jogadores ao redor do mundo, como você enxerga essa alta demanda não sendo atendida por aqui? Existe algo que a Sports Interactive esteja fazendo para contornar a situação?

PF: A SI está sempre monitorando a situação, mas no fim isso depende também dos clubes quererem aparecer no jogo, visto que o sistema brasileiro de direitos de imagens difere do praticado na Europa. Apesar disso, eu acho uma pena não venderem o jogo aqui, e isso ainda prejudica a pesquisa brasileira, pois, menos jogadores de FM no Brasil fazem com que tenhamos menos potenciais pesquisadores também.


Tal como Paulo, somos todos amantes do esporte e também do game, que serve muitas vezes, como uma porta de entrada para muitos e muitas que se interessam em trabalhar com futebol.

Novamente, gostaria de agradecê-lo pela atenção e disponibilidade em responder às perguntas feitas pelo PFTF e também pela boa recepção sempre que estivemos em contato.

Muito obrigado, Paulo!

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