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Por dentro do América-MG: uma entrevista exclusiva com Maickel Padilha

Conversei com o Coordenador do Núcleo de Análise de Desempenho e Mercado do América Futebol Clube e Analista de Desempenho do Profissional, Maickel Bach Padilha, e falamos a respeito da sua história, o processo da análise de desempenho e às funções desempenhadas pelos analistas, da interação entre os diversos setores do clube e do DNA formador do América-MG.


Atualmente, além de possuir o cargo de coordenador do Núcleo de Análise de um dos maiores clubes mineiros no âmbito estadual e nacional, Maickel é graduado em Educação Física pela Universidade Positivo (Bolsista-Funcionário), possui mestrado em Ciência do Desporto com intercâmbio no Núcleo de Pesquisa e Estudos em Futebol (NUPEF) da Universidade Federal de Viçosa (UFC) sob as orientações do Prof. Dr. José Guilherme de Oliveira e Prof. Dr. Israel Teoldo da Costa e é doutorando pela Universidade do Porto sob a orientação do Prof. Dr. Júlio Garganta – sem contar a sua longínqua carreira “por detrás das câmeras” que contam desde a sua estadia como bolsista parcial, funcionário da faculdade (visando complementar a renda da mensalidade), diferentes estágios e trabalhos externos ao futebol, até às funções de treinador e auxiliar em categorias de base sub-11, 13, 14, 15, 17 e 19 e experiências na China, Portugal e Espanha, -. Em resumo, ele é gente como a gente.

Perguntado sobre como ele definiria o processo de análise de desempenho em uma frase, Maickel não titubeou. Na sua concepção e em relação à análise de desempenho técnico-tática (uma de suas especialidades), a frase que melhor descreveria tal processo seria “coletar dados e oferecer informações como suporte, especialmente ao treinador, de modo que essas [informações] lhe auxiliem na tomada das melhores decisões em relação ao jogo e aos processos de formação e desenvolvimento dos jogadores nas mais diferentes fases.”

O homem responsável pela coordenação do Núcleo de Análise e que tem como papel liderar os processos de análise de desempenho (profissional e base) e mercado do clube, bem como auxiliar (oferecer suporte) às decisões do técnico Lisca e de toda a sua comissão, não comunga com a ideia de que a análise de desempenho tenha se instaurado no Brasil após o fiasco da Copa do Mundo de 2014 e o fatídico jogo contra a Alemanha. “De fato, a presença de setores específicos de análise de desempenho se tornou ainda mais formal após a Copa de 2014, o que não quer dizer, porém, que isso não existia.” E acrescenta: “mesmo quando eu estava na faculdade (2007-08), às análises já existiam de uma forma ou de outra, especialmente através dos trabalhos de scout (no início dos anos 2000) que por si só representam uma parte da análise de desempenho.”

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Maickel (ao fundo) em uma troca de informações do técnico Lisca (e sua comissão técnica) com os atletas americanos | Foto: Daniel Hott

Devido ao seu histórico de trabalhos com atletas jovens e crianças, Maickel destaca a importância de um processo cuidadoso durante os momentos de captação e iniciação desses que serão futuros jogadores do clube. Sua preocupação com o trabalho extracampo é visível, afinal de contas, “estamos falando de pessoas que são impactadas diretamente pelo cenário em que vivem.”

Falar sobre a revelação de (bons) atletas é falar em América-MG, pelo menos em Minas Gerais e para muitos torcedores mineiros. Clube cujo “DNA formador” é reconhecido por todo o país, o América tem uma das melhores formações do estado e foi de lá que saíram nomes como o de Euller “Filho do Vento”, o campeão do mundo Gilberto Silva, os atacantes Alex Mineiro e Richarlison (Everton-ING), o lateral Danilo (Juventus-ITA) e outros.

Para Maickel, essa mentalidade formadora e de constante utilização dos atletas da base do clube vem de uma política iniciada há muitos anos no clube, como “uma filosofia de modo geral, das pessoas envolvidas desde o primeiro escalão da diretoria até os treinadores, preparadores, analistas e demais funcionários”, assim, “a cultura do clube se instaurou de tal maneira que já é algo evidente para todos, de modo que os próprios treinadores (da base ou do profissional) já chegam com isso em mente e (re)conhecendo o seu papel em formar pessoas e atletas em todas as categorias, desde as menores até o profissional.”

“Com exceção do Jori (24), Zé Ricardo (24) e do Matheus (22), que também são formados no clube, temos hoje por volta de 1/3 do elenco formado por atletas oriundos da base.”

Maickel sobre o DNA formador do América-MG
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Maickel (à dir., de boné) em reunião junto da comissão técnica e jogadores do América-MG | Foto: Estevão Germano

Pode-se dizer, portanto, que os três jogadores supracitados são a representação máxima do sucesso em relação ao processo que faz do América um dos clubes que melhor pinça, amadurece e forma atletas em Minas Gerias (e no Brasil). Zé Ricardo e ‘Matheusinho’ possuem mais de 115 jogos pelo profissional do clube, onde foram, inclusive, campeões do Campeonato Brasileiro da Série B de 2017. Jori, por outro lado, estimula uma dura batalha pela camisa de número 1 do time titular, tendo completado quase 30 partidas pelo profissional em seu tempo presente na agremiação.

Assim como acontece em empresas “tradicionais”, é preciso entender que cada uma possui a sua cultura, forma de gerenciamento e claro, diferenças de como são realizados os processos entre uma e outra empresa. Nesse caso, o futebol não é um mundo à parte, e as empresas do ramo, nesse caso, os clubes, possuem semelhanças e diferenças na hora de manejar cada função e conduzir seus respectivos departamentos.

No América não é diferente, por isso, de maneira inversa ao que ocorre em outros clubes, o analista e coordenador do Núcleo de Análise precisa estar sempre presente nas atividades relacionadas a equipe, tais como às viagens e todos os jogos (dentro e fora de casa) da temporada. Se por um lado a pessoa responsável pela função se mantém ainda mais conectado com o time principal, por outro, o contato direto em relação à base e demais categorias fica por conta da (boa) interação de Maickel com os analistas da base e todos os profissionais que compõem o corpo técnico e clínico das camadas inferiores. Tudo isso é feito por meio de troca de informações em reuniões, conversas informais e outras formas de contato para o melhor gerenciamento das situações no dia a dia.

“O clube vem se estruturando e melhorando muito em relação à base. Hoje, a captação [dos jovens atletas] é feita de forma sistemática e estruturada.”

Maickel sobre o trabalho de captação feito na base do clube

Em relação as instalações físicas destinadas aos times do América, “o sub-11 e o sub-13 trabalham no [Futebol Clube] Topázio, tendo então, o seu CT separado dos demais, enquanto que a base alterna os seus treinamentos entre o SESC Minas Gerais e o CT [Lanna Drumond], já o profissional fica somente no CT.” Apesar das separações e delimitações de cada categoria, ao término de cada ano existe uma reunião no clube que conta com a presença dos treinadores de cada camada e de seus respectivos coordenadores, cujo objetivo é fortalecer a troca de informações e o detalhamento de caso a caso dos atletas juniores.

“A partir disso, se tem uma reunião fundamentada para saber se ‘esse sobe’ ou ‘não sobe’, com base nos relatórios de cada categoria e com as observações do quadro técnico”. Voltando para o lado humano, Maickel comenta ainda que quando um atleta (da base) começa a ter dificuldades em manter um nível de atuação regular, segundo os critérios dos treinadores, é realizado um encontro junto da família do jovem para entender os motivos pelos quais a criança ou o adolescente não está rendendo. Como dito pelo próprio: “o futebol nada mais é do que o reflexo da sociedade.”

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Maickel (meio) junto do Cauan de Almeida (Auxiliar Técnico à esq.) e Gerson Rocha (Preparador Físico à dir.) | Foto: Daniel Hott

Departamento cuja uma das principais atribuições é auxiliar na tomada de decisão dos demais profissionais ligados ao jogo e ao desempenho (treinadores, coordenadores e diretoria), é estritamente necessário que Núcleo de Análise, ou melhor, os seus integrantes, possuam boa relação interpessoal para poderem se relacionar de maneira próxima com os demais funcionários do clube, sejam eles jogadores ou não, e de modo que a informação possa ser transmitida da melhor maneira possível.

Com passagens, visitas e trabalhos junto de alguns clubes europeus que vão desde o Futebol Clube Infesta-POR até o poderoso Valencia Club de Fútbol-ESP, Maickel é sucinto em relação ao “padrão” europeu de análises e do jogo: “a diferença é cultural e isso deve ser levado em conta sempre, pois, o jogo por si só também é cultural.”

“Se o Jorge Jesus viesse ao Brasil sem respeitar a cultura [futebolística do país], provavelmente ele não teria o sucesso que teve. Feito isso, ele potencializou ainda mais os seus atletas.”

Diferenças culturais de jogo entre Europa x Brasil

Mesmo antes da pandemia, tratei em diversos textos e postagens por aqui a respeito do crescimento exponencial das plataformas e aplicativos de big data que compõem o futebol e auxiliam os clubes durante as preparações e contratações da temporada. Com isso, o crescimento dos chamados “scouts digitais” é mais do que real e, diferentemente do que se imagina, o trabalho realizado pelos observadores/scouts tradicionais continua a existir, possuindo um papel crucial na hora de se somar mais visões e opiniões em relação aos momentos táticos e técnicos apresentados pelos jogadores de maneira individual ou coletiva.

Seja pelo conhecimento empírico acumulado com as idas aos campos ou com uma análise estatística realizada desde a comodidade do próprio escritório em casa, Maickel acredita que “nenhum conhecimento deve ser descartado”, e que “as diferentes maneiras de estudo possuem pontos positivos e pontos a serem melhorados”, por isso, “se você não considerar [todas] as vertentes qualitativas e quantitativas, você estará diminuindo as chances de se obter sucesso.”

Falamos também a respeito da volta do futebol pós-parada e sobre suas principais consequências e futuras alterações. Num primeiro momento, é notória a falta de aptidão física e mental dos jogadores nesse retorno, como o tempo de bola ou o acúmulo de lesões, visto que o tempo de ausência dos mesmos foi bem acima do que normalmente ocorre – suas férias duram no máximo 30 dias -. Apesar disso, o principal problema, segundo Maickel, será em relação aos jogadores das divisões inferiores, que continuam afastados dos gramados e cujo impacto será ainda maior nos clubes menores – tal como ocorre na sociedade de maneira geral -.

Maickel (à esq.) discutindo instruções junto do Cauan de Almeida (Auxiliar Técnico à dir.) – Foto: Mourão Panda

Por fim, pedi que ele concedesse algumas dicas, especialmente para os leitores, que, assim como ele, sonharam e sonham em trabalhar no ramo do futebol: “respeitar as pessoas e saber ouvir [especialmente os mais velhos], considerar todas as opiniões envolvidas, ‘saber estar nos locais’, de modo que você consiga respeitar as pessoas que lá estão, e antes de qualquer coisa: ser uma boa pessoa.”

E acrescenta: “para quem tem essa condição hoje, seja através de um celular com acesso à internet ou não, o ideal é procurar por livros, artigos, estudos e ler, ver jogos, lives, treinos, conversar com amigos, fazer cursos, buscar se basear em estudos científicos, procurando o suporte das Universidades, como a UFV através do NUPEF, coordenado pelo Prof. Israel Teoldo, de colegas e também com os seus pares (do esporte), de modo que você possa trocar o conhecimento – sem vergonha ou deboche -. Finalizando, algo que também considero muito importante é não estudar somente o futebol, pois, como dito, o futebol é a ponta do iceberg, é o reflexo da nossa sociedade, então precisamos nos cercar de outros conteúdos que formem essa base.”


Admirador do técnico Paulo Autuori, campeão brasileiro com o Botafogo, Maickel se mostrou bastante solícito desde o nosso primeiro contato, colocando em prática algo que ele nem sempre obteve em seus tempos de estudante, devido à dificuldade de fazer parte do esporte e do acesso às pessoas da área.

Novamente, quero agradecê-lo pelo tempo, atenção e palavras concedidas a mim e aos leitores, de maneira geral. O nosso bate-papo foi engrandecedor e tenho certeza que outras pessoas serão influenciadas com as palavras aqui transcritas.

Obrigado e obrigado, Maickel!

*Foto de capa via Daniel Hott

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