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Um “novo” Ciclón

Crise financeira, vestiário abalado e maus resultados. Alguma semelhança com o que ocorre no futebol brasileiro? Também. Dia sim e dia também vemos manchetes e mais manchetes sobre como más gestões são capazes de destruir gradualmente clubes jovens e também centenários.

No Paraguai não é diferente e, mais precisamente em Assunção, o conhecido e campeão Cerro Porteño enfrenta(va) esse ano uma de suas maiores crises na história. Que pese a pandemia do novo coronavírus, o clube já estava em maus lençóis antes mesmo da paralisação do campeonato.

A crise

Devido a uma dívida no valor de US$ 1.6 milhões com a Universidad Concepción-CHI, referente a compra do atacante argentino Diego Churín, o Ciclón viu a FIFA punir o clube com o impedimento na inscrição de novos atletas junto ao elenco azulgrana. Com isso, o clube que havia pago somente uma das três parcelas que prometera teria duas opções: 1) vender alguma de suas joias e quitar a dívida que perdura desde 2017 ou; 2) postergar ainda mais o pagamento do montante e recorrer às camadas inferiores do clube para a sequência do Torneio Apertura de 2020.

Cerro Porteño, “imPAPArable” - Fútbol - ABC Color
Diego Churín (à dir, sentado no esférico) no clássico diante do Olímpia | Foto via ABC

Pois bem, a opção 2 foi a utilizada pelo clube. Muito pelo fato de já ter um elenco curto e, dado o cenário inquietante provocado pela pandemia e consequentes atrasos salariais, 5 de 6 jogadores (em fim de contrato) deixaram o clube: Jorge ‘Conejo’ Benítez, Juan Camilo Saiz, Juan José Aguilar, Víctor ‘Topo’ Cáceres e Sergio Díaz.

Ainda em abril/20, quando o mundo passava pelo início da “grande paralisação” e o Torneio Apertura de 2020 já se encontrava suspenso, vários atletas do quadro azulgrana continuavam sem ter recebido seus salários, sendo que, alguns meses atrás, os salários de janeiro haviam sido pagos através de cheques a vencer apenas em março. Os jogadores que se encontravam no plantel desde o término de 2019 realizaram cobranças junto à diretoria do clube em dezembro daquele ano, enquanto os que chegaram em 2020 não puderam sequer acessar seus salários.

Acompanhado por maus resultados dentro dos gramados, o time refletia o que se passava dentro do clube. Antes da paralisação, o Ciclón – que já havia sido eliminado precocemente da Libertadores após ser esmagado pelo Barcelona de Guayaquil – amargava um lugar no meio da tabela com míseros 12 pontos, com uma campanha combinada de 3 vitórias, 3 empates e 2 derrotas.

A virada

Juntamente com as lideranças do elenco, como é o caso do selecionável Nelson Haedo Valdez e o próprio Diego Churín, o quadro diretivo do clube buscou negociar uma redução dos salários dos atletas em detrimento da não demissão dos funcionários e manutenção das equipes de base – que seriam imprescindíveis mais tarde -. Assim, o segundo salário do ano foi quitado em maio.

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Francisco Arce, campeão e treinador do Cerro Porteño | Foto via EFE

O técnico, Francisco ‘Chiqui’ Arce, ex-jogador e formado no próprio Cerro Porteño, foi mantido de forma a evitar mais custos e baixas no elenco em busca de uma virada de chave. E ela veio.

Após o retorno do torneio Apertura em julho, o centenário clube de Assunção soma incríveis 11 vitórias (seguidas) e 1 empate, com 20 gols marcados e apenas 4 sofridos, sua colocação subiu de um nada prestigioso sexto lugar para a tão sonhada liderança, e o time comandado por Arce está a apenas uma vitória de se sagrar campeão, algo que pode ocorrer, inclusive, nesse sábado diante do River Plate-PAR.

A aposta nos jovens “deu liga”, e nomes como o da revelação do campeonato Alexis Duarte (20) – filho do ex-cerrista e também defensor Andrés Duarte -, o equilibrado e conhecido Santiago Arzamendia (22), o capitão Mathias Villasanti (23) e o ofensivo Enzo Giménez (22) – todos titulares -, vem fazendo por merecer tudo o que se tem conquistado em campo, além de fazer parte do 3º elenco mais jovem da competição, cuja média de idade é de 26.4 anos.

Abaixo, os atletas sub-23 presentes no elenco do Cerro Porteño com mais minutos em campo na competição nacional paraguaia de 2020:

  1. Santi Arzamendia (22) – 14 partidas disputadas | 1.260′ em campo;
  2. Mathias Villasanti (23) – 13 partidas disputadas | 1.044′ em campo;
  3. Alexis Duarte (20) – 11 partidas disputadas | 990′ em campo;
  4. Enzo Giménez (22)* – 12 partidas disputadas | 923′ em campo;
  5. Josué Colmán (22) – 14 partidas disputadas | 512′ em campo;
  6. Alan Rodríguez (20) – 12 partidas disputadas | 469′ em campo;
  7. Rodrigo Del Valle (19) – 1 partida disputada | 90′ em campo;
  8. Joel Jiménez (23) – 1 partida disputada | 80′ em campo;
  9. Wilder Viera (18) – 2 partidas disputadas | 56′ em campo;
  10. Miguel Martínez (21)* – 1 partida disputada | 10′ em campo.

*Apenas o meia Enzo Giménez e o arqueiro reserva Miguel Martínez não foram formados pelo Ciclón.

No Brasil ou no Paraguai, na América do Sul ou na Europa, mais uma vez, o que se vê, é a base sendo requisitada de maneira urgente e pelos motivos errados. No Cerro, as coisas vão dando certo e podem, inclusive, ajudar o clube com o dinheiro de mais uma (provável) conquista, algo que não acontecia desde o Clausura de 2017.

Resta saber até quando clubes tão importantes social e financeiramente continuarão com diretivas pouco usuais e, como sempre, vivendo à mercê da sorte.

**Em entrevista recente concedida ao Esporte Interativo, ‘Chiqui’ Arce comentou os motivos que levaram o time à virada de chave além de outros assuntos do futebol paraguaio e brasileiro.

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Estádio General Pablo Rojas (La Olla Azulgrana) | Foto via Cerro Porteño

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